Blog do Roberto Zanin

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Luzes, Câmeras, Educação

Pablo 1O médico, professor e escritor Pablo Gonzalez-Blasco, respira cinema desde criança. Em casa, seus pais, avós e irmãos, faziam da sétima arte o assunto preferido. Muitas lições vindas da tela eram transportadas para a vida familiar. Toda essa experiência foi transportada para sua atividade na formação de jovens médicos, e até virou tese de Doutorado. Blasco percebeu ainda que bons filmes também trazem lições para pais, educadores e líderes. Nesta entrevista, ele fala sobre o poder do Cinema na educação.

  • Você utiliza o cinema como ferramenta para o ensino na Medicina e até escreveu um livro sobre isso. Como descobriu que os filmes poderiam ter essa finalidade?

Há mais de 25 anos, de modo espontâneo, comecei a utilizar cenas de filmes para compartilhar com alguns alunos que estavam envolvidos num projeto conjunto em busca de uma Medicina mais humana. Reparei que aquilo tinha um efeito que eu não tinha previsto. O impacto emotivo era enorme, mesmo para os alunos que me tinham ajudado a montar o filme, juntando várias cenas de películas diferentes, na hora de projetá-lo e comentá-lo. Lembro que numa daquelas primeiras ocasiões eu perguntei: “O que aconteceu? Vocês sabiam perfeitamente as cenas que eu projetaria. Por que essa emoção toda? Eles responderam; “Não, isto é algo diferente”. Todos juntos assistindo e refletindo sobre seus comentários, foi um mergulho de emoções e de vivências”.

Espicaçado por essas experiências decidi sistematizá-las de modo acadêmico. O resultado foi a minha Tese Doutoral na Faculdade de Medicina da USP, sobre Educação Médica e Humanismo através do Cinema (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5144/tde-31082009-085309/pt-br.php). Isso foi 15 anos atrás. De lá para cá, o trabalho não parou. Converti-me, de algum modo, no médico do Cinema. Voltando à sua pergunta: a descoberta foi uma combinação de um hábito incorporado na infância, e da resposta positiva dos alunos que me rodeavam há 20 anos. E confirmado pelos resultados educacionais nessas duas décadas.

  • Como descobriu que o cinema também seria ferramenta de ensino não apenas para os médicos, mas para qualquer pessoa?

Tenho muitos amigos e conhecidos que são diretores de empresas, gestores de vendas e de RH. Sabendo do meu gosto pelo Cinema, e acompanhando a minha trajetória na educação médica, começaram a surgir os convites para “fazer aqui na minha empresa isso que você faz com seus alunos”. Houve até casos desafiantes, onde um amigo diretor de vendas de uma importante multinacional convidou-me para conduzir um workshop que durava todo o dia. Ele tinha convocado os vendedores para cobrar os resultados que, diga-se de passagem, não eram dos melhores. O resultado foi excelente. Funcionou. A equipe mergulhou num processo reflexivo, decidiram redigir cartas de intenções para a equipe e para eles mesmos, e saíram felizes. Devo dizer que o encarregado de Recursos Humanos ficou receoso quando viu que a cobrança por vendas tinha parado. O meu amigo foi taxativo: “Isso é muito mais importante do que cobrar metas; isto é cuidar das pessoas, isso é o verdadeiro RH”. Soube que no ano seguinte as vendas duplicaram.

  • Você é autor do livro “Educação da Afetividade através do Cinema”. Como educar nossas emoções com os filmes?

O Cinema é o modo moderno da narrativa. O envolvimento emocional é análogo ao que em outros tempos se tinha com a Literatura (quando as pessoas liam mais), com o Teatro, a Poesia, a Ópera. Enfim, com as artes. Hoje o Cinema tem uma presença maior, porque estamos ancorados numa cultura da imagem, e da emoção. Perguntamos então: O que fazer com essa enxurrada de sentimentos? Como aproveitar isso para educar?

O progresso formativo não vem determinado apenas pelo que se conhece e pelo que se faz, mas pelo modo como se conhece e como se executa. Os sentimentos promovem uma ponte entre o que se conhece – a ideia, o conceito, situado no âmbito do cognitivo – e o que se quer, o que se executa, situado no âmbito da vontade. Não basta saber as coisas para executá-las, é preciso querer fazê-las, e esse querer vai além da simples imposição da vontade. É uma questão de motivação. Surge a dúvida do possível risco que supõe educar apenas a sensibilidade, ancorar-se na estética e nas emoções, sendo que os outros valores – o bom, o verdadeiro – permanecem como conceitos estranhos, pouco definidos para os jovens. Não seria este método do Cinema uma educação fictícia, superficial, epidérmica, que não atingiria o núcleo do educando para promover atitudes duradouras e maduras?

É justamente desencadear este processo de reflexão, mediante recursos próximos ao estudante, o que o se pretende com a estética, da qual o aprendizado através do Cinema faz parte. Dito de outro modo: estabelecer um ponto de partida para uma atitude reflexiva, uma pista de decolagem para futuros aprendizados.

  • Como os pais podem utilizar o cinema para transmitir valores aos filhos?

Devem promover a reflexão. Deixar que os filhos pensem. O Cinema não é um recurso para “dar recados”, para dizer “como devem ser feitas as coisas”, mas apenas para provocar a reflexão. Fazer as pessoas pensarem, esse é o núcleo da educação eficaz. E se acontece que as pessoas pensem algo diferente do que eu pretendo? Esse é o risco natural de toda educação. Abolir a reflexão para evitar problemas e conclusões indesejáveis não é educar, mas um processo de produção em série, como no fast-food. Estamos formando pessoas, não produzindo garrafas de Coca-Cola.

  • Há filmes dirigidos ao público infanto-juvenil, que fazem apologia de sexo e violência. Como os pais devem agir nessas situações?Proibir?

A simples proibição não é educativa. Além do que o proibido acaba estimulando a procura “pirata” do assunto. Hoje as opções são inúmeras, começando pela internet, o celular, etc. Melhor do que estabelecer proibições é concorrer com filmes que transmitam valores. Quer dizer, enfrentar a concorrência com profissionalismo e competência. Isso requer, naturalmente, pensar, gastar tempo. Proibir é mais fácil, mais rápido, mas não funciona. É preciso educar o paladar afetivo, com uma gastronomia saudável.

Num dos meus livros, anoto uma lembrança significativa. Em certa ocasião, um amigo me confidenciou que estava preocupado com os filhos, porque seus colegas de escola falavam com naturalidade sobre “o namorado da mãe” ou “a namorada do pai”. O receio do meu amigo é que seus filhos pensassem que uma família como a deles fosse algo em extinção. Recomendei-lhe algo pouco convencional, ou pelo menos assim me pareceu no momento, mas confesso que foi a melhor ideia que me veio à cabeça: “Peça uma pizza, alugue um filme chamado ‘Lado a Lado’ e, depois de assisti-lo, todos em família, escute-os”.  A película conta a estória de uma adolescente de doze anos e de um garoto de sete, filhos de pais separados, que não aceitam a nova namorada de seu pai. Passados alguns dias, meu amigo me disse que a ideia funcionou.

  • Como você analisa a forma como a Religião é retratada no cinema?

O tema é muito amplo, e as posturas são variadíssimas. É impossível uma síntese sobre o tema. Mas gosto de analisar os casos concretos. Veja, por exemplo, aquele filme simples, de orçamento reduzidíssimo, “Homens e Deuses” sobre os monges que são martirizados na Argélia. Foi recorde de bilheteria, levou a Palma de Ouro em Cannes. Multidões assistindo aos dias finais de nove monges que celebram a Páscoa em silêncio, ao som do Lago dos Cisnes. Algo que faz pensar que talvez não seja a Religião que não se entenda com o cinema, mas que o modo de apresentá-la nem sempre é o mais adequado.

Mais informações sobre os livros e indicações de bons filmes estão no site http://www.pablogonzalezblasco.com.br

 

Written by Editor do Blog

27 de agosto de 2016 at 18:28

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O Dinheiro e a Felicidade

Assisti a um documentário, exibido pelo GNT, (“Born Rich” – Nascidos em berço de ouro) e que parte de um mote original. O criador da obra,  Jamie Johnson,  é simplesmente o bisneto do fundador da Johnson & Johnson.  Pensou em retratar um pouco o que se passa no coração e na mente de quem, como ele, nasceu em berço de ouro (e bota ouro nisso! Jovens com fortuna acima de um bilhão de dólares). Os depoentes têm algo em comum, além da abundância de recursos financeiros: a tristeza explícita, que salta aos olhos e chega quase a sufocar.

Há cenas e depoimentos que provocariam horas de reflexão. Ivanka, filha de Donald Trump, manifesta a angústia de não saber se suas amizades são sinceras , ou se as pessoas se aproximam dela por causa do dinheiro. Todos assumem que quem quiser casar com eles, tem que aceitar fazer um contrato pré-nupcial. O avô de Jamie é um exemplo: alterou o testamento, deserdou os seis filhos e transferiu seus 500 milhões de dólares para a terceira mulher, ex-cozinheira da família. No fim, um acordo na Justiça redistribuiu a herança.  

 O pai de Jamie nunca precisou trabalhar. Enquanto pinta um quadro, é questionado pelo filho sobre qual carreira deveria seguir. O pai, sem tirar os olhos da tela, responde, com ar de fastio:  “sei lá, você pode colecionar documentos e mapas históricos!”

 

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Jamie e o pai: fazer o quê da vida?

         

Há três declarações antológicas (ou “antalógicas”):

1)      A assumidamente consumista compulsiva  Stephanie Ercklentz, herdeira de um banqueiro nova-iorquino, explica por que os membros desse clube só namoram e casam entre si: “”Não suportaria que um namorado qualquer me criticasse por pagar 600 dólares por uma bolsa Gucci”, dispara.

2)      Perguntado sobre o que sentiria se perdesse a fortuna, Jack Weil, herdeiro da Autotote, empresa que domina o mercado de apostas em corridas de cavalos nos EUA, cravou: “Seria o mesmo que perder um pai, uma mãe ou um filho. Não consigo nem pensar nessa hipótese. É o tipo de situação que só conseguiria enfrentar caso acontecesse”.

3)      Ivanka Trump ao lembrar a época em que o pai estava endividado: “Saímos de um dos nossos hotéis, meu pai viu um mendigo e me disse: esse homem é seis bilhões de dólares mais rico do que eu”.

Não sei por que, mas me lembrei agora daqueles que não nasceram em berço de ouro, mas ganharam na loteria, e enriqueceram da noite para o dia. Muitos achavam que seus problemas haviam acabado. Mas, na verdade, apenas haviam começado.

O resumo da ópera? Para quem já é feliz sem ele, o dinheiro pode ajudar. Mas, por si só, o dinheiro não traz felicidade. E nem banda buscá-la.

 

 

 

Written by Editor do Blog

30 de janeiro de 2009 at 16:29