Blog do Roberto Zanin

Este blog analisa e repercute notícias destes tempos.

Archive for the ‘Igreja’ Category

Encíclica Laudato Sii propõe nova relação do homem com o planeta

Uma encíclica parte do ponto de vista do líder da Igreja Católica, dirigida, em primeiro plano aos católicos, mas, “de dentro” visa propor a todos, crentes e não crentes, uma reflexão profunda sobre uma determinada realidade.

Quando um papa escreve uma encíclica, é lógico que não faz isso com base no que lhe vem à cabeça. Toda a sabedoria de pensadores (católicos ou não), consultores, teólogos e outros expertos amalgamam o texto final.  Dessa forma, as encíclicas ganham perspectiva a partir de um ponto “acima” do contexto, debruçam-se sobre ele, reconhecem o que há de bom, detectam problemas e propõem soluções.

A encíclica Laudato Sii, do Papa Francisco, sobre  Ecologia, segue essa linha. O simples fato de ter sido escrita, desafia o laicismo (perversão da laicidade), que procura empurrar a Igreja para as sacristias; que crê que a Religião deve se limitar à orações privadas, e ignora que a fé implica na ação. Crer que Deus criou o Universo leva à consequência lógica de que a preservação do planeta seja, sim, “pauta” da Igreja.

Todos os 246 parágrafos de Laudato Sii, podem se resumir a quatro perguntas fundamentais, matriz de que derivam tudo o que a encíclica aborda: Para que passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? O que Terra quer de nós? O Papa não crê que nossas preocupações ecológicas possam ter resultados importantes, se não nos fizermos essas perguntas de fundo.

Esse pressuposto já desafia o homem e a mulher modernos, pelo simples fato de convidá-los a parar e a refletir. A correria hodierna, o excesso de informação e a paradoxal escassez de formação que se experimenta na era das redes sociais e dos aplicativos, nos leva a correr, nos leva ao ruído. Agimos e não refletimos; fazemos e não pensamos.

A partir de então, a Encíclica explana o que está acontecendo em “nossa casa” comum, a Terra. Ressalta que cada um deve assumir como problema pessoal o que acontece no meio-ambiente e aborda questões como as mudanças climáticas – “um dos principais desafios atuais para a humanidade”- ; a questão da água, ressaltando que o acesso à água potável e segura é um direito humano básico; a perda da biodeversidade e a dívida ecológica que contraímos. Tudo isso levando em conta que esses e outros problemas ambientais recaem, sobretudo, sobre os pobres.

O texto segue falando sobre o “Evangelho da Criação”. Com base no Gênesis, que relata que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, o papa alerta que se deve rechaçar, todavia, a ideia de que isso confere ao ser humano um poder absoluto sobre as demais criaturas. O mesmo Deus que hierarquizou a criação, deu o jardim do mundo ao homem para que este o cultive e proteja.

O capítulo terceiro põe o dedo na ferida ao tratar da raiz humana sob os problemas ecológicos:  “O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica acima da realidade”. Nesse sentido, o homem não vê a natureza como habitat dos seres, mas como um ambiente de extração pura e simples, sem se importar com as consequências de suas ações.

O núcleo da proposta da encíclica é uma ecologia integral, que em suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o rodeia. Nesse sentido, elenca linhas de ação em nível macro, reconhecendo que os acordos internacionais sobre meio-ambiente não atingiram os resultados esperados, além de novas políticas regionais (cada país tem desafios ecológicos próprios). A encíclica pede maior transparência nos processos decisórios, já que a corrupção e interesses econômicos por vezes sobrepujam o impacto ambiental de determinadas obras e intervenções.

O Papa encerra com um apelo para que haja uma educação ecológica e, mais além, uma espiritualidade ecológica , propondo um novo estilo de vida, com consumo responsável.  Francisco exorta os cidadãos para que saibam pressionar governos e empresas, para que levem em conta o impacto ambiental de suas políticas e formas de produção.

Em meio às sombras da realidade ambiental do planeta, Laudato Sii procura aportar luz. O Papa acredita que o mesmo ser humano que não soube cuidar de sua casa, é capaz de converter seu modo de pensar e agir para reconstruir o planeta, como São Francisco reconstruiu a Igreja.

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18 de junho de 2015 at 11:38

Publicado em Igreja

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O sínodo, os gays e a janela de Overton

A “Janela de Overton” leva o nome do falecido presidente de uma think-tank norte-americana voltada para as agendas políticas. Joseph Overton percebeu como combater um dos grandes desafios daqueles que defendem causas inaceitáveis para a opinião pública: registrar como pensa a maioria da sociedade num dado momento sobre um determinado assunto. Quando a população é contra, a estratégia é desviar o foco do assunto em si e tratá-lo de forma oblíqua. Nesse sentido, por exemplo, há anos se trata da legalização do aborto como questão de “saúde pública”, desviando os olhos e mentes da sociedade para aquilo que realmente é: o assassinato de um ser humano indefeso no ventre da própria mãe.

Ao lado da legalização do aborto, a causa gay é a que mais tem martelado suas postulações na mídia.  A grande maioria da sociedade rejeita a ideia de “casamento gay”. A palavra “casamento” está arraigada no DNA mental de várias gerações na forma de um noivo e de uma noiva ao pé do altar. A Janela de Overton, nesse caso, funciona para desviar o foco da questão de fundo. Através de sofisticadas empresas de assessoria de comunicação, passa-se a martelar na mídia questões como “o amor não escolhe sexo”, ou “a possibilidade de que crianças relegadas à orfandade possam ser acolhidas por esses parceiros” e, acima de tudo, abandona-se o termo “casamento” para adotar a terminologia “união civil do mesmo sexo”, mais palatável do que a ideia de matrimônio.

Caso as Igrejas ou entidade ligadas à família apontem que não se pode tratar do mesmo modo a união gay e as famílias reconhecidas desde sempre como tal, a estratégia é a violenta demonização dos oponentes, com direito a vilipêndios e blasfêmias, como as que ocorrem nas paradas do orgulho gay. Não há meio-termo. Ou se aplaude a prática ou se é homofóbico.

A Janela de Overton gay marcou um golaço nas últimas semanas. O grande “frame”, o símbolo do Sínodo dos Bispos sobre a Família, foi a maneira pela qual a Igreja deve tratar os homossexuais. Dez em cada dez meios de comunicação ao redor do planeta destacaram os parágrafos do primeiro relatório sobre o tema, elaborado após as manifestações dos prelados. Teve destaque o trecho que diz que as comunidades católicas devem acolher os homossexuais “aceitando e avaliando sua orientação sexual, sem comprometer a doutrina católica sobre a família e o matrimônio”. A mídia interpretou o “aceitando” quase como um dogma de que a Igreja, a partir de agora, estaria aprovando a conduta dos homossexuais, em vez de acolhê-los e ajudá-los a abandonar o pecado.

Outro texto que a análise da mídia engajada distorceu, é aquele que diz que há casos em que “o apoio mútuo, até o sacrifício, constitui um valioso suporte para a vida dos parceiros”. Estaria a Igreja dizendo que, em certas situações, é melhor aconselhar que parceiros do mesmo sexo que vivem juntos, continuem assim, já que se ajudam mutuamente? Claro que não.

A ducha de água fria veio com o Relatório Final do Sínodo. Nele, a Igreja diz em linhas gerais o que já está no Catecismo: amar o pecador e odiar o pecado. Duas frases do Papa Francisco, no discurso de encerramento do Sínodo, vão nessa linha: “a Igreja não se envergonha do irmão caído e não finge que não o vê, mas se sente motivada e quase obrigada a levantá-lo e encorajá-lo a retomar o caminho” e “em nome de uma misericórdia enganadora, se enfaixam as feridas sem curá-las.”.

Acolher a ovelha ferida para curá-la. O Bom Pastor faz isso.

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29 de outubro de 2014 at 12:41

Do Racismo à Cristofobia

As ofensas racistas dirigidas por alguns torcedores do Grêmio ao goleiro Aranha, do Santos, receberam a justa indignação da sociedade. A incessante divulgação do ato, simbolizada na torcedora flagrada pelas onipresentes câmeras de televisão, disseminou a discussão sobre essa prática abominável e frequentemente dissimulada.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica que dedica alguns tópicos sobre o racismo. Nele se lê, por exemplo, no parágrafo 144: “ Deus não faz distinção de pessoas» (At 10, 34; cf. Rm 2, 11; Gal 2, 6; Ef 6, 9), pois todos os homens têm a mesma dignidade de criaturas à Sua imagem e semelhança… e uma vez que no rosto de cada homem resplandece algo da glória de Deus, a dignidade de cada homem diante de Deus é o fundamento da dignidade do homem perante os outros homens. Esse é o fundamento último da radical igualdade e fraternidade entre os homens independentemente da sua raça, nação, sexo, origem, cultura, classe.”

Todos nós, brancos ou negros, amarelos ou vermelhos, refletimos a glória do nosso Pai comum. Lato sensu, todos, nós, ricos e pobres, letrados ou analfabetos, homens e mulheres, crianças ou idosos, somos como as cores que se desprendem do prisma do Criador. Todos iguais na dignidade de sermos humanos. Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja declara, no parágrafo 433, que “de modo particular, é moralmente inaceitável qualquer teoria ou comportamento caracterizado pelo racismo ou pela discriminação racial”.

Triste pensar que muitos dos que se declaram cristãos tragam em seu DNA pensamentos e comportamentos racistas, não necessariamente ofendendo abertamente àqueles que julgam serem inferiores, mas através de ironias, piadas e discriminações veladas.

Coloco um ponto final na questão dessa chaga justamente combatida pela mídia, e abro aspas para começar falando sobre outro tipo de discriminação, perseguição até, que presenciamos em nossa sociedade: a “Cristofobia”.

A justa indignação só é despertada pelos arautos da pós-modernidade quando a ofensa é de cunho racial, comportamento sexual e até religioso, desde que a vítima seja de fé tida como minoritária. Quando o objeto de vilipêndio é a fé cristã, a maioria dos formadores de opinião se cala com a mordaça do laicismo. Como se isso não bastasse, com frequência vão além do silêncio cúmplice e aplaudem, por exemplo, manifestações “artísticas” que zombam de dogmas que julgam obsoletos. Como se também isso não bastasse, vão ainda mais além: quando alguns, infelizmente, poucos, cristãos reagem a esse tipo de intolerância, são rotulados como “fanáticos”.

Isso vale também para a agenda eleitoral. Cobram-se dos candidatos agendas políticas públicas para as minorias, mas ai de quem quiser defender causas como as da família tradicional, a liberdade religiosa ou o direito à vida, desde a concepção até a morte natural. Combatamos todos os preconceitos. Não apenas os que o politicamente correto aplaude.

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30 de setembro de 2014 at 15:38

Os balões de ensaio da entrevista do Papa

Dia desses ouvia o noticiário.

Um correspondente europeu, efusivo, anunciava que o Papa estava ventilando mudanças radicais na Igreja.

O tal repórter, a exemplo de outros jornalistas, acabou distorcendo (e torcendo) o sentido das palavras papais, pronunciadas na entrevista  à revista “Civillita Católica”, dos jesuítas.

Francisco explicou, entre outras coisas, que neste início de pontificado prefere priorizar um discurso positivo, em vez de elencar os conhecidos postulados doutrinais e morais, focados, principalmente, no que “a Igreja é contra”.

A verdade é que muitos batizados se afastaram  e se dividiram em dois grupos: os que acreditam que aos católicos tudo é permitido e os que pensam que aos católicos tudo é proibido.

Estes não se animam a voltar ao redil romano por não passarem pelo “check list”: “já se separou?”; “usa métodos contraceptivos?”, etc.

Há também aqueles “católicos” que, como diria o samba, “deixam a vida lhes levar”; vão à missas de sétimo dia, respondem ao Censo do IBGE que são católicos e, quando se deparam com um problema existencial, seguem o conselho do colega de trabalho evangélico.

Vão ao culto, sentem-se acolhidos pelo pastor e dirão, no futuro: “Não encontrei  Deus no catolicismo”.

Penso que o DNA da “polêmica” entrevista do Papa à revista “Civilitta Católica” é: para quem está afastado da Igreja, os “convidados Vips”, conforme Francisco disse na JMJ, o primeiro anúncio deve ser…o primeiro anúncio, o Kerigma.

Ressalta Francisco: “A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: ‘Jesus Cristo salvou-te’.”

Utilizando a metáfora de Cristo, que compara seus discípulos a ovelhas, o pastor ao encontrar a desgarrada, não deve dizer: “Que bom que eu te encontrei. Agora, para voltar ao aprisco, você deve antes curar suas feridas e prometer que nunca mais vai fugir”. Pelo contrário, a comovente imagem de Cristo que carrega a ovelha nos ombros, nos remete à ideia de que Ele a está primeiro levando-a  ao redil para, só depois, curá-la.

Engana-se quem, por ingenuidade ou má-fé, pensa que Francisco sinaliza que vai “liberar geral”.

Ele condena os extremismos de ambos os lados.

O excesso de escrúpulos, que pode levar ao farisaísmo, à religião da letra, da lei.

E critica a outra face da moeda, daqueles que pretendem transformar Deus numa espécie de Pai indiferente ao Bem e ao Mal, que no final das contas, vai levar todo mundo para o Céu e colocar no seu banquete, lado a lado, o corrupto obstinado e São Francisco de Assis.

A imagem do confessor foi empregada, na entrevista, nesse sentido pelo Pontífice: O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois é misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as mãos porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as mãos dizendo simplesmente “isto não é pecado” ou coisas semelhantes. As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas».

A primeira plana do frame “Igreja-Mídia” tem sido, via de regra, negativo: o antagonismo das posturas moral-doutrinais católicas em face da agenda politicamente correta.

Nesse sentido, o Catolicismo parece ser a Religião do “Não”: Não ao aborto, Não ao casamento gay, Não, não, não…”

A abordagem que o Papa quer que a Igreja adote tem o frame do “Sim”.

Sim à vida, Sim a todos os que precisam do “calor” (termo utilizado por ele, na entrevista) do Evangelho.

Isso de modo algum significa relaxamento na bimilenar doutrina Católica-Apostólica.

Significa que Cristo, que disse que “são os enfermos que precisam do Médico”, primeiro acolhia a samaritana, a prostituta, o fiscal corrupto, o coletor de impostos, para depois, olhos nos olhos lhes dizer: “Agora vai e não peques mais”!

Written by Editor do Blog

27 de setembro de 2013 at 22:04