Blog do Roberto Zanin

Este blog analisa e repercute notícias destes tempos.

Archive for setembro 2013

Os balões de ensaio da entrevista do Papa

Dia desses ouvia o noticiário.

Um correspondente europeu, efusivo, anunciava que o Papa estava ventilando mudanças radicais na Igreja.

O tal repórter, a exemplo de outros jornalistas, acabou distorcendo (e torcendo) o sentido das palavras papais, pronunciadas na entrevista  à revista “Civillita Católica”, dos jesuítas.

Francisco explicou, entre outras coisas, que neste início de pontificado prefere priorizar um discurso positivo, em vez de elencar os conhecidos postulados doutrinais e morais, focados, principalmente, no que “a Igreja é contra”.

A verdade é que muitos batizados se afastaram  e se dividiram em dois grupos: os que acreditam que aos católicos tudo é permitido e os que pensam que aos católicos tudo é proibido.

Estes não se animam a voltar ao redil romano por não passarem pelo “check list”: “já se separou?”; “usa métodos contraceptivos?”, etc.

Há também aqueles “católicos” que, como diria o samba, “deixam a vida lhes levar”; vão à missas de sétimo dia, respondem ao Censo do IBGE que são católicos e, quando se deparam com um problema existencial, seguem o conselho do colega de trabalho evangélico.

Vão ao culto, sentem-se acolhidos pelo pastor e dirão, no futuro: “Não encontrei  Deus no catolicismo”.

Penso que o DNA da “polêmica” entrevista do Papa à revista “Civilitta Católica” é: para quem está afastado da Igreja, os “convidados Vips”, conforme Francisco disse na JMJ, o primeiro anúncio deve ser…o primeiro anúncio, o Kerigma.

Ressalta Francisco: “A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: ‘Jesus Cristo salvou-te’.”

Utilizando a metáfora de Cristo, que compara seus discípulos a ovelhas, o pastor ao encontrar a desgarrada, não deve dizer: “Que bom que eu te encontrei. Agora, para voltar ao aprisco, você deve antes curar suas feridas e prometer que nunca mais vai fugir”. Pelo contrário, a comovente imagem de Cristo que carrega a ovelha nos ombros, nos remete à ideia de que Ele a está primeiro levando-a  ao redil para, só depois, curá-la.

Engana-se quem, por ingenuidade ou má-fé, pensa que Francisco sinaliza que vai “liberar geral”.

Ele condena os extremismos de ambos os lados.

O excesso de escrúpulos, que pode levar ao farisaísmo, à religião da letra, da lei.

E critica a outra face da moeda, daqueles que pretendem transformar Deus numa espécie de Pai indiferente ao Bem e ao Mal, que no final das contas, vai levar todo mundo para o Céu e colocar no seu banquete, lado a lado, o corrupto obstinado e São Francisco de Assis.

A imagem do confessor foi empregada, na entrevista, nesse sentido pelo Pontífice: O confessor, por exemplo, corre sempre o risco de ser ou demasiado rigorista ou demasiado laxista. Nenhum dos dois é misericordioso, porque nenhum dos dois toma verdadeiramente a seu cargo a pessoa. O rigorista lava as mãos porque remete-o para o mandamento. O laxista lava as mãos dizendo simplesmente “isto não é pecado” ou coisas semelhantes. As pessoas têm de ser acompanhadas, as feridas têm de ser curadas».

A primeira plana do frame “Igreja-Mídia” tem sido, via de regra, negativo: o antagonismo das posturas moral-doutrinais católicas em face da agenda politicamente correta.

Nesse sentido, o Catolicismo parece ser a Religião do “Não”: Não ao aborto, Não ao casamento gay, Não, não, não…”

A abordagem que o Papa quer que a Igreja adote tem o frame do “Sim”.

Sim à vida, Sim a todos os que precisam do “calor” (termo utilizado por ele, na entrevista) do Evangelho.

Isso de modo algum significa relaxamento na bimilenar doutrina Católica-Apostólica.

Significa que Cristo, que disse que “são os enfermos que precisam do Médico”, primeiro acolhia a samaritana, a prostituta, o fiscal corrupto, o coletor de impostos, para depois, olhos nos olhos lhes dizer: “Agora vai e não peques mais”!

Written by Editor do Blog

27 de setembro de 2013 at 22:04