O perigo mora nas estatísticas

Ok, confesso. Tenho um pé atrás com estatísticas.
Quando entrei para a faculdade de comunicação social, pensei que estaria livre para sempre do bicho-papão que a Matemática sempre foi para mim.
No primeiro dia de aula, o professor se apresenta: “Bem-vindos, futuros jornalistas e publicitários. Meu nome é Leonardo e serei o professor de Estatística”.
Quase saí correndo. Ele explicou que no primeiro ano apreenderíamos métodos de pesquisa de mercado e que a estatística faz parte desse processo, margem de erro, etc.
Passados quase vinte anos, a Estatística volta a me incomodar.
Como ela tem “costas largas”, serve de justificativa para tudo, principalmente quando está em jogo o lucro econômico e o modo de pensar politicamente correto.
O conto da Carochinha começa assim: “Estatísticas apontam que X por cento das pessoas….”; continua assim: “especialistas apontam que a solução para o problema seria a liberação (ou obrigação, ou a adoção de medidas) diante desse quadro”, e termina com a aceitação de parte da opinião pública (que novas estatísticas “demonstrarão” que é a maioria das pessoas).
O poderoso, permanente e riquíssimo lobby para a legalização do aborto é um exemplo. ONGs e pesquisadores não sei das quantas, patrocinadas pelas mesmas Fundações de sempre, via de regra, brandem estatísticas sobre o “aborto inseguro”. Caso de “saúde pública”. Para inflar números, utilizaram até casos de abortos não provocados.
Isso sem falar nas pesquisas com perguntas que induzem as entrevistadas ao engano, para dar a idéia de que as mulheres aceitam, em sua maioria, a legalização desse crime.
O dono mordeu o cachorro
Outro fenômeno que induz ao erro de percepção também me repete ao primeiro dia de aula na faculdade. O professor de Jornalismo se apresentou e disse que aquilo que é comum não é notícia: “O cachorro morder o dono não é notícia. Já o contrário, é”.
Nesse sentido a superexposição de pessoas com comportamentos que diferem da maioria, dá a impressão de que exceções viraram regra.
Bom exemplo é a matéria de recente capa da Veja, que faz apologia e glamouriza mulheres que optaram por não ter filhos.
A reportagem cita dados (de novo, as estatísticas) do IBGE de que o número de mulheres que chegaram aos 50 anos sem filhos aumentou 20%, e trata isso como algo espantoso.
O dado é tem certa relevância, mas é bem menor do que o fenômeno bombástico propalado na matéria.
A própria reportagem admite que mulher que não quer a maternidade sempre será minoria, mas o texto faz de tudo para mostrar as vantagens de ser do bloco do “eu em primeiro lugar”.
Todas as personagens são sorridentes e “de bem com a vida”.
Não há questionamentos sobre como será a velhice ou a solidão.
Uma capa de revista com mães realizadas familiar e profissionalmente seria bem-vinda. Mas aí o dono não teria mordido o cachorro.
E não há pesquisa e estatísticas encomendadas sobre o assunto.
Primeiro eu, depois…eu também

Eugênio é uma pessoa intrigante.
O prefixo onomástico lhe faz jus.
O “eu” vem primeiro.
Eugênio é muito cioso dos seus direitos.
Mas o direito dos outros…
Outros? Eles existem?
Eugênio “armou um barraco” com o síndico do prédio de sua rua.
O pó da reforma do condomínio lhe irrita o nariz.
Eugênio tem memória seletiva.
Esquece que, há um mês, terminou a reforma em seu sobrado.
Reforma que, às 7 da manhã, acordava o idoso casal vizinho.
Sem falar na grande quantidade de pó que ventilava.
Igualzinho ao do prédio.
No trânsito, Eugênio se comporta de maneira idêntica.
Quando está ao volante, fica furibundo quando não lhe dão passagem.
Fica possesso, quando algum espertinho fura a fila no semáforo.
Mas não dá passagem e ninguém e, quando pode, também fura a fila.
Sem remorsos.
Quando o pedestre pisa na faixa e acena pedindo para que pare, Eugênio diz para si mesmo, em silêncio:
“Pobre folgado!”
Estaciona o carro na rua e ao atravessar na faixa, xinga o motorista do micro que não parou e quase passa por cima dele.
Eugênio é um símbolo do nosso tempo.
Tempo dos “meus direitos”.
Quem pode mais, chora menos.
Tempo de “cada um faz o que quiser, desde que não mexam comigo”.
O mundo está cheio de Eugênios, que exigem:
“Tudo (e todos) devem se subordinar a mim.”
Eles têm capacidade para não apelar

Um amigo colocou no Facebook um vídeo de humor muito inteligente. Nele, um afoito repórter tenta colocar palavras na boca do entrevistado.
O fato de ser jornalista e assessor de imprensa fez com que eu me identificasse com a situação.
Gregório Didivier, o ator que faz o papel do repórter, é de raro talento. Faz rir sem forçar a barra.
Vi que a atração faz parte de um negócio chamado “Porta dos Fundos”.
Pesquisei e vi que eles estão fazendo muito sucesso no You Tube.
Há vídeos com milhões de vsualizações.
Pensei. Que bom que os caras não precisaram apelar para fazer sucesso com humor.
Afnal, não é tão difícil ser engraçado utilizando recursos como palavrões, pornografia, bizarrices e outras apelações.
Infelizmente, me enganei.
Procurei outros vídeos da trupe e me deparei com material bem chulo.
Vi também muito desrespeito com a fé dos outros.
Fabio Porchat, um dos líderes da turma, disse, em entrevista ao Estadão, que é ateu (tudo bem), que acha graça em quem tem fé (os crentes Einstein, Newton e Cia. não devem achar graça) e que só não faz piada com Maomé por ter medo de morrer.
Pena que a única maneira de não ser vilipendiado seja a violência.
Pena que atores tão inteligentes não consigam (ou não queiram) fazer vídeos tão bons como o da entrevista, sem precisar apelar.
A fumaça branca e o que é mutável
Para quem estuda comunicação social ou trabalha na área, como eu, a renúncia de Bento XVI, o conclave e os primeiros atos de Francisco são um verdadeiro case de significados e significantes.
E é perfeitamente possível fazer uma metáfora entre esses sinais e o que o papa deverá fazer em seu pontificado.
O Vaticano, talvez sem o saber, deu uma bela lição de como o antigo e o novo podem conviver.
Por ocasião da renúncia de Bento, vimos a porta do apartamento papal ser lacrada com uma grade fita. Graficamente, não haveria melhor maneira de comunicar que a partir de então, só o seu sucessor poderia retirar o lacre.
A “mudança” do papa emérito do Vaticano para Gastelgandolfo, foi a síntese de como usar a modernidade sem abrir mão da tradição. As câmeras não perderam nenhum segundo o íhelicóptero de vista. Católicos do mundo todo acompanharam cada instante da despedida do pontífice. Vantagens da modernidade,via tecnologia. Mas, instantes depois, a tradição reapareceu: o fechar dos portões de Castelgandolfo e a retirada da Guarda Suíça, comunicaram com perfeição explícita: o papa não é mais papa reinante.
Mas nada me fascina mais do que a simbologia da comunicação no Conclave. Após o juramento, com ares cinematográficos, a TV mostra a retirada da Capela Sistina de todos os seres humanos que não ostentam solidéu vermelho na cabeça, à exceção do bispo que faria um sermão sobre a importância do momento, e do cerimoniário, que quase em close, fecha e bate a porta da capela na “cara” de todo o mundo.
Para anunciar que já foi escolhido o Papa, a Igreja poderia fazer um comunicado para um pool de meios de comunicação.
Mas prefere manter a tradição da fumaça branca. Em pleno século 21, o mais primitivo meio de comunicação é utilizado com eficácia.
Todos pendentes de uma chaminé.
A metáfora entre esses sinais e o que deve fazer o novo papa?
Há coisas que podem e devem ser mudadas na Igreja. E ela deve saber aproveitar o que a modernidade traz de bom.
Mas há coisas que vão além da modernidade. São atemporais. Eternas.
A Igreja Católica e os ‘muitos”

A Igreja Católica é mal compreendida por “muitos” porque ela, a Igreja, e eles, os “muitos”, vivem em universos paralelos. Para que esses dois cosmos se encontrem, são os “muitos” que devem fazer a curva. A Igreja pontifica sobre pressupostos. Os “muitos”, sobre “pós-supostos”. A Igreja aponta as causas dos problemas. Os “muitos” contornam as consequências.
Exemplo: a Igreja parte do pressuposto de que a disseminação da aids e de doenças sexualmente transmissíveis ocorre por causa do sexo fácil, da propaganda da mulher como objeto, da erotização precoce etc. O que ela faz? Reforça que existe sacralidade no corpo humano e que, como sempre defendeu, a união entre homem e mulher deve ser abrigada no seguro recôndito do matrimônio fiel. Os “muitos” dizem: hoje em dia todo mundo transa desde muito cedo. Use camisinha!
Outro exemplo: exterminar embriões em pesquisas com células-tronco, com o bom fim de curar graves enfermos. O que a Igreja faz? Reforça a tese de que o embrião é vida humana, que não pode, literalmente, ser medida pelo tamanho. E relembra o que muitos não entendem: um meio mau não justifica um bom fim. Os “muitos” alegam que um embrião tem o tamanho de um pingo de “i”, não anda e não fala, enquanto adultos poderiam, em tese (cada vez mais em tese), obter a cura de diversos males. Muitos e muitas cientistas incensados pela mídia deram entrevistas anunciando maravilhas à época da aprovação da Lei de Biossegurança. Algum tempo depois, alguns sumiram dos jornais, enquanto outros só aparecem para falar sobre assuntos mais amenos.
A Igreja se debruça sobre 20 séculos de Filosofia. Os “muitos” “formam suas opiniões” com 5 minutos de leitura de revistas semanais, enciclopédias iluministas, sites internéticos e jornais laicos (na verdade laicistas). Para a Igreja, 100 anos são como um dia. Para os “muitos”, tudo tem de ser rápido, instantâneo. Partilham da frase daquela canção: “É melhor viver 10 anos a mil do que mil anos a dez”.
Mas mesmo quem faz parte dos “muitos” pode aprender, por exemplo, com a renúncia de Bento XVI, desde que tenha honestidade intelectual. Os “muitos” viram na renúncia algo decidido em um clique, como fuga, como algo conveniente. Mas, na verdade, o que esse intelectual alemão de intensa espiritualidade deve ter feito? Deve ter ponderado a situação do mundo, a situação da Igreja e a própria situação, tudo diante do Senhor a quem escolheu dedicar a vida e, stricto sensu, ao único a quem deve satisfações. Com serenidade, tomou a decisão.
Lição para os “muitos”: antes de tomar decisões de cabeça quente, pondere, analise, anteveja as consequências. Se, além disso, você acredita num ente superior, consulte-o. Ouça o que ele tem a dizer. E decida.
Outra grande lição: mesmo com a decisão que pesava sobre seus ombros, o papa guardou segredo. Afinal, o segredo também foi fruto da análise feita de antemão. Há coisas que só devem ser ditas no momento certo. Antes disso, só você e Deus devem saber.
Mudemos as leis ou outros Kevins Morrerão

A tragédia de Oruro me deixou com uma dor do estômago que não passa.
Não passa ao ver a tristeza do pai que sou, ao ver outro pai chorando a morte repentina, inocente e sacrificada de um filho.
Não passa ao ver tantos que sempre incensaram a Libertadores como um “torneio diferente”, para times “machos”, agora se revestirem de arautos da paz.
Não passa por saber que sempre foram toleradas pedradas, urinadas, bombas, doping, brigas, capangas e resultados armados, nessa várzea sulamericana, que foi alçada pela mídia ao supra sumo dos troféus.
Não passa ao ver o clubismo, o amor e o ódio ao Corinthians, o fanatismo, enfim, suplantar uma vida (bem maior e inviolável) que se perde.
Atendo-me aos fatos, há que se separar o crime, na esfera penal, do regulamento da Conmebol.
A justiça se faz com a reparação do ofendido e com a pena ao culpado.
Kevin não pode ser ressarcido. Sua família, também não o terá de volta, mas deve acionar a Conmebol, o San José e a Gaviões da Fiel.
A torcida, que faz um carnaval caro, vende milhares de produtos próprios e tem milhares de sócios, tem grana de sobra para indenizar a família da vítima.
Sinto muito, mas não consigo defender quem atirou.
Nem quem o acobertou.
O regulamento da Conmebol prevê várias sanções aos clube.
Optou-se por pena rigorosa, proibindo a presença dos torcedores no estádio, até, pelo menos, o final da fase de grupos.
Acho justo? Não.
Penso que a sentença é um reflexo de nossa sociedade. Permissiva.
Que espera holocausto em boates para fiscalizá-las.
Que espera mortes em alagamentos e deslizamentos de terra, para inventar sistemas de alarme.
Que espera a promiscuidade para dizer “use camisinha e tá tudo certo”.
Que olha com indulgência para toda a espécie de desvio moral e ético.
A Lei Brasileira protege os bandidos e atemoriza o cidadão.
A estudada reforma do Código Penal, quer liberar o que deveria continuar proibido.
Em vez de termos penas rígidas para bandidos de dentro e de fora dos estádios, esperamos que Rodrigos de Gasperis (corinthiano assassinado em 1992 por bomba que teria sido atirada por são-paulino, da Torcida Independente) e outros tantos anônimos morram ao longo dos anos, para, agora, com essa punição, achar que começa uma nova era.
A nova era vai realmente começar quando, respaldada por leis duras, sem “réus primários, um terço de penas e regimes semi-abertos”, a sociedade se sinta protegida e, os marginais, coagidos.
A sensação de impunidade estimula os celerados.
Voltando à pena imposta ao Corinthians, acho injusta, mas como essa é a nossa sociedade, que sirva de exemplo.
Continuemos enxugando o gelo.
Sei que é impossível para quem não tem cérebro, mas que, com essa punição, topeiras de todas as torcidas pensem duas vezes antes de fazer algo parecido.
Descanse em paz, Kevin.
O Papa que perdemos

“Como um raio em dia de sol”, a renúncia do Papa Bento XVI me abalou.
Senti impacto inversamente proporcional à alegria que tive quando assisti ao anúncio de que o imenso Ratzinger sucederia ao querido João Paulo II.
Quem poderia imaginar que Joseph Ratzinger, tido, rotulado e tachado injustamente como radical e intolerante, se tornaria Papa, ainda mais em Conclave tão rápido?
Em seu curto pontificado, Bento XVI deixa três obras-primas em forma de Encíclicas.
“Deus Caritas Est” fala sobre o que é afinal, o Amor, com “A” maiúsculo. Resgata o sublime sentido dessa palavra, tão desgastada. Quase tudo virou amor.
“Spes Salvi” fala da esperança que não é a última que morre, mas que é eterna.
“Caritatis in Veritate” fala que quem ama baseia seus critérios no bem do amado. Não no que o amado quer ouvir.
Nesse espírito contestou governos e suas leis anticristãs.
A caridade sem a verdade cai no sentimentalismo.
Corajoso, não escondeu sob o tapete as mazelas de ordenados servos infiéis que mancharam a Igreja.
Ciente de que o culto a Deus é algo sublime, lutou pela pureza da Liturgia, pela sacralidade do sagrado (parece redundância, mas não é).
E nesse mundo que busca o poder pelo poder, abre mão de ser Papa.
Detratado por quem não tem altura moral ou intelectual para tanto e para desespero desses, passou ileso à devassa de documentos reservados ao escritório pontifício.
Ao longo de 2013 anos, a Igreja passou por várias crises, letais, fatais, para qualquer instituição. Mas sobreviveu, em um perene ressurgir.
Impossível ficar indiferente. Como ela se mantém de pé?
Como explicar que nos tempos mais difíceis em seu seio, também de seu útero tenham nascido homens como São Francisco de Assis ou mulheres como Madre Teresa, para ficar apenas com dois santos entre milhões deles, canonizados ou anônimos?
O que tem essa Igreja, que não se seduz pela moda, pelo que “todo mundo faz”, pelos novos tempos?
Há algo nela que transcende à compreensão de ateus, de “católicos” que veem a Igreja sob a ótica materialista-marxista da luta de classes e de outros que dão de ombros para Pedro.
A má notícia para os lobos é que o Papa segurou a nau com mão firme.
A boa notícia para o rebanho é que Bento XVI não optou por adequar a Igreja ao que queriam os lobos.
Uma de suas frases que fazem pensar os que se bastam a si mesmos: “Não se pode seguir Jesus de forma solitária. Quem cede à tentação de ir ‘por sua própria conta’ ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele.”
Joseph Ratzinger é um gênio. Um luminar que une erudição à simplicidade; sabedoria à humildade.
Essa é o Papa que perdemos.
Rezemos para que o Conclave eleja um sucessor digno dele.